Como são capturadas e desenvolvidas as imagens e rotas das cidades que aparecerão em aplicativos de celulares e GPS portáteis

GPS

Quando pega um celular ou um aparelho de navegação portátil e aciona a função GPS – que, além de posicioná-lo geograficamente, vai fornecer rotas para chegada ao destino final – um cidadão pode ter a impressão de que está lidando apenas com um software que tira partido de imagens geradas por satélites espalhados ao redor do planeta. Mal sabe ele que, por detrás de todos os mapas, pessoas de carne e osso foram responsáveis por registrar cada caminho. Ali, in loco, faça sol, faça chuva…

A captura e a digitalização de rotas, assim como o reconhecimento de todas as vias que compõem uma cidade, normalmente são feitas por cartógrafos e geógrafos que recebem a incumbência de dirigir pelas cidades em busca do registro visual das ruas, avenidas e pontos de interesse (os chamados POIs, famosos no mundo do GPS), tais como restaurantes, hotéis, postos de gasolina, órgãos públicos etc.

Para mostrar como funciona o trabalho em campo destes profissionais que constroem mapas digitais, a Navteq convidou a imprensa para um Ride & Drive, algo como “um percurso dirigido”, comandado por profissionais da empresa incumbidos de digitalizar as informações da cidade de Manaus, assim como já foi feito em milhares de outras cidades no mundo.

No Brasil, 1.259 cidades já foram “dirigidas” e têm mapas atualizados trimestralmente disponíveis em celulares e aparelhos GPS portáteis. Destas, 823 já estão presentes no aplicativo Nokia Mapas, cliente da Navteq, assim como outras concorrentes da própria Nokia.

Segundo Helder de Azevedo, diretor-geral da Navteq no Brasil (braço da empresa comprada pela Nokia em 2007), a cada dia cem milhões de pessoas usam um mapa Navteq de alguma forma – seja através do celular ou de navegadores GPS portáteis, mapas na internet ou por meio de sistemas empresariais e corporativos. Com a chegada dos smartphones, a empresa ganhou um leque muito maior de dispositivos para invadir e o interesse pela digitalização de uma quantidade infinitamente maior de cidades.

- Há muitos desafios, como as limitações das fontes de informação, a variação de qualidade destas e a necessidade, por conta disso, de um time de campo muito maior – diz Helder.

Hoje, a Navteq tem 196 escritórios espalhados por 36 países, com mais de quatro mil funcionários, sendo que 25% destes têm como função construir e manter mapas digitais, usando uma especificação global que permite que qualquer funcionário da empresa, em qualquer lugar do mundo, possa acessar o mapa e fazer atualizações e modificações.

O mapa digital começa a ser construído no momento em que a Navteq decide digitalizar uma cidade e faz contato com autoridades locais. Mais de 80 mil fontes de mapas já foram consultadas pela empresa, tais como registros em prefeituras, fotos geradas por satélites, mapas físicos e por aí vai. De posse das informações-base, é feita a coleta e verificação dos dados e consequente validação das informações. É aí que uma primeira versão do mapa é gerada e publicada.

É nesta versão que o time de campo fará as devidas modificações. De três em três meses, os técnicos saem a campo para verificar mudanças de trânsito, aparecimento de novas vias, variações nas mãos de ruas e avenidas e toda uma sorte de novas informações.

Só para se ter uma ideia do trabalho que dá, um mapa digital pode ter até 260 atributos, tais como sentidos de direção, faixas de rolagem, velocidade máxima, cruzamento em nível, numeração lado par e lado ímpar, presença de pontos de interesse etc.

- Ao contrário do vinho, que fica melhor com o tempo, um mapa só piora. Porque as cidades são criaturas vivas – diz Helder.

Além de serem vivas, as cidades têm peculiaridades que precisam ser observadas pelo time de campo. Helder cita o exemplo do Rio de Janeiro e a imensa quantidade de favelas. O desafio da empresa é não rotear o usuário até um local de alta periculosidade. O que fazer? Aqui, o conhecimento local é fundamental. A saída? Classificar, no mapa da cidade do Rio, as favelas como áreas de baixa mobilidade.

Desta forma, quando se aproxima de uma região dessas, o usuário recebe a orientação de contornar a área, ou seja, o GPS é capaz de recalcular o caminho de forma a tirar o usuário da rota perigosa. É claro que se o usuário definir a favela como ponto final, ou seja, se ele insere no GPS o destino “rua tal na favela tal”, o GPS oferecerá a rota, mas uma área perigosa nunca vai aparecer como meio para se chegar a um fim.

Os técnicos da Navteq contam com uma antena GPS instalada em cima do veículo, que fornece o mapa básico da cidade visitada e que terá seu mapa digitalizado. No colo, vai um notebook conectado ao GPS e um tablet da marca Wacon. O especialista usa a “canetinha” do tablet para inserir os atributos que vai, visualmente, encontrando pelo caminho. Um detalhe interessante: mesmo que se perca em alguma localidade, o técnico nunca vai pedir informações de transeuntes e usá-las para a definição de rotas – só informações públicas são reproduzidas no mapa digital.

Dentro do mapa básico, o técnico insere no tablet os pontos de interesse, cruzamentos, retornos, placas de velocidade, ruas transversais e quaisquer outras informações que possam ser relevantes para quem for usar o mapa. Outra precaução é o uso de uma câmera de vídeo, que grava todo o percurso. O objetivo, explica Danilo Kulaif, analista da Navteq e cartógrafo de formação, é manter um registro que possa ser consultado mais tarde em caso de dúvida – isso evita que o técnico precise pegar um avião para confirmar o dado.

Dentro do programa que roda no notebook, o técnico tem à disposição uma série de ícones, cada um representando um atributo que possa vir a afetar a navegação. Quanto maior a cidade, mais complexo será o trabalho, uma vez que os pontos de interesse são mais numerosos.

Dentro das cidades, há uma hierarquização – eixos maiores, por exemplo, são considerados mais importantes, e os técnicos chegam a dirigir várias vezes por eles até captar todas as informações. Já as ruas são classificadas em cinco categorias, sendo a cinco a menos importante e a um, a mais valiosa. O número de atributos, no entanto, será coletado da mesma forma em grandes avenidas ou ruas pequenas. Dentro das cidades ainda há áreas consideradas fechadas, como condomínios e zonas militares. Assim, o usuário nunca receberá uma rota que tenha esses locais como destinos. Ah sim: ruas que não tenham sinalização pública (como placas) não são inseridas, já que não se pode garantir suas direções.

- É preciso entender como funciona a rede viária da cidade e ao dirigir recriamos a classificação viária destas cidades. A lógica de campo é anotar tudo – diz Danilo.

Por fim, há de se deixar claro que o uso do GPS compreende três aplicações – o mapa, que é construído pela Navteq (e por outras empresas do mesmo segmento), o hardware (que pode ser celular ou aparelho GPS portátil) e a aplicação que roda nos dispositivos que chegarão às mãos dos usuários, como o Nokia Mapas.

- A gente cria as informações, mas é o programa (Nokia Mapas) que vai ler as informações para decidir o melhor caminho a ser indicado para o usuário – complementa Danilo.

Um técnico chega a passar sete horas por dia dirigindo por uma cidade como Manaus, cujo mapa digital, diz a Navteq, levará três semanas para ficar pronto.

Fonte: jornal oglobo

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